'Ele não destruiu só a vida dela, destruiu a nossa': a dor de famílias após o feminicídio
Após o feminicídio, famílias enfrentam a dor, a revolta e a luta por justiça A perda provocada por um feminicídio não termina com o crime. Ela deixa marca...
Após o feminicídio, famílias enfrentam a dor, a revolta e a luta por justiça A perda provocada por um feminicídio não termina com o crime. Ela deixa marcas permanentes em filhos, mães, pais e toda a família, que passam a conviver com o trauma, a culpa e a ausência de quem foi morta. 📱 Siga o g1 São Carlos e Araraquara no Instagram Foi o que aconteceu com a manicure Edilma Pereira da Silva Mathias, filha de Denuzia Pereira de Castro, de 62 anos, assassinada a facadas pelo companheiro em fevereiro deste ano, em Araraquara (SP). Para Edilma, a dor da perda ainda parece irreal e ela luta diariamente contra a depressão. "Você não espera que a pessoa vai ser arrancada assim de você. Você acha que está num pesadelo, que vai acordar, mas não. Ele não destruiu só a vida dela, destruiu a nossa", disse. Edilma Mathias, filha de Denusia Pereira de Castro, e Priscila Magrin, mãe da jovem Nicolly Pogere, refletem sobre a dor do luto e busca por justiça Reprodução EPTV/Redes sociais Leia também: Violência contra mulher: veja DDMs e outros locais para buscar ajuda em cidades do interior de SP 'O que você fez para provocar?': professora agredida lembra humilhação e silenciamento antes da Lei Maria da Penha 'Dona Penha': entenda tipos de violência contra a mulher e como a Lei Maria da Penha se fortaleceu em 20 anos Sinais de violência A manicure conta que a família percebia os sinais da violência, mas a mãe acreditava que o companheiro mudaria. "A gente conseguia enxergar de fora, mas ela dizia: 'Ele vai mudar'. E ele não estava mudando, só estava piorando. Eu esperava que ela conseguisse sair desse relacionamento", disse. A filha também lembra da violência sofrida por Denuzia até os últimos momentos."Minha mãe lutou até o final. Ela foi enterrada de blusa de gola e luvas, porque lutou para viver e não conseguiu." Denusia Pereira de Castro, de 62 anos, foi morta a facadas no trabalho em Araraquara, SP Arquivo pessoal Para ela, o feminicídio destruiu muito mais do que a vida da mãe. "Ele matou a minha mãe, mas também matou uma avó, uma irmã, uma tia", comentou. Desde então, Edilma faz tratamento psicológico e usa antidepressivos para enfrentar o luto, e alterna dias em que não consegue trabalhar. Ela é atendida pelo Centro de Referência da Mulher. Edilma Mathias, filha de Denuzia, relembra brigas e pressão de companheiro dela por dinheiro em Araraquara. Reprodução EPTV Caso Nicolly A dor também acompanha Priscila Magrin, mãe da adolescente Nicolly Pogere, de 15 anos, assassinada em julho de 2025. A jovem foi atraída até a casa do namorado, em Mococa (SP), onde foi morta a facadas e esquartejada. O corpo foi encontrado dias depois às margens de uma lagoa em Hortolândia (SP). O rapaz e uma adolescente de 14 anos, que também se relacionava com ele, confessaram o crime, foram apreendidos e tiveram a internação provisória decretada. Priscila lembra do momento em que recebeu a notícia da morte da filha. A despedida foi marcada pela brutalidade do crime. "Eu só conseguia surtar, gritar, chorar. Não conseguia aceitar. Ficava falando que era mentira. Enterrei minha filha em dois caixões lacrados. Eu não pude ver nem o rostinho dela", recordou. Durante a investigação, a família recebeu mensagens que ajudaram a esclarecer a motivação do assassinato. "Recebemos prints de um menino dizendo que mataria minha filha como prova de amor para outra menina." Moradora de Mococa (SP), Nicolly Pogere foi assassinada em Hortolândia Reprodução/Facebook Luto e luta Sem conseguir aceitar que os autores possam voltar ao convívio social, Priscila transformou o luto em mobilização. Ela passou a defender mudanças na legislação e criou um projeto que leva o nome da filha. "Dois menores cometem uma brutalidade desse tamanho e depois voltam para a sociedade. Eu não consigo aceitar. Fiz um projeto de lei com o nome da Nicolly e eu sonhei com ela dizendo: 'Mamãe, não desiste de tudo que você está fazendo'", finalizou. Priscila Magrin , mãe de Nicolly Fernanda Pogere, pediu justiça. Adolescente foi morta com requintes de crueldade por namorado em Hortolândia EPTV/Reprodução Nova investigação e ataques virtuais A Polícia Civil de Hortolândia instaurou um novo inquérito para investigar o assassinato de Nicolly em abril deste ano. A nova apuração foi aberta após a entrega de áudios que levantam dúvidas sobre quem teria esquartejado a adolescente. Embora dois adolescentes — o namorado da vítima, de 17 anos, e a namorada dele, de 14 — tenham confessado participação no feminicídio, as gravações sugerem que uma terceira pessoa pode ter sido responsável por ocultar o corpo. A família também passou a sofrer ataques virtuais após o crime. Segundo a Polícia Civil, os ataques foram motivados por "ódio pelo ódio" e não por qualquer relação pessoal com os envolvidos. Em operação interestadual em abril deste ano, a corporação cumpriu mandados de busca e apreensão contra cinco suspeitos — um adulto e quatro adolescentes — investigados por ameaças, perseguição virtual (stalking) e divulgação de fotos íntimas falsas da vítima. A polícia também apura se o assassinato foi transmitido pela internet e se o crime teve incentivo em ambientes virtuais. Veja a reportagem completa no EPTV1: REVEJA VÍDEOS DA EPTV: Veja mais notícias da região no g1 São Carlos e Araraquara